Em meio a tanta carnalidade dos últimos dias, foi um refrigério para minha alma ler o livro “Teologia dos Reformadores”, de Timothy George, publicado pela Editora Vida Nova.
Durante a leitura, eu me deparei com um relato sobre Janneken Munstdorp. Janneken era uma cristã anabatista, cuja filha - também chamada Janneken - havia nascido na cadeia enquanto sua mãe esperava a execução. Detalhe, ela seria executada simplesmente por ser fiel à sua fé, nada mais.
Janneken então escreve uma carta à sua filha, endereçada como um testamento “a Janneken, minha amada filha, enquanto eu estava (imerecidamente) encarcerada por causa do Senhor, na cadeia, na Antuérpia, em 1573 d.C.”
Creio que vale a pena transcrever essa carta rogando ao Espírito Santo para que trabalhe em seu coração a partir dessas palavras escritas há quase 500 anos atrás, mas que ainda exalam a fragrância do conhecimento de Cristo (2 Coríntios 2:14):
“Minha querida filhinha, eu a confio ao Deus todo-poderoso, grande e temível, o único sábio, para que Ele a guarde e a faça crescer em seu temor, ou que a leve para casa em sua juventude; esse é o pedido de meu coração para o Senhor - você, que ainda é tão pequena, e que eu devo deixar aqui, neste mundo cruel, mau, perverso.
Visto, então, que o Senhor assim ordenou e predestinou, que eu deva deixá-la aqui, e você fique aqui desprovida de pai e mãe, eu a entregarei ao Senhor; faça Ele de você conforme sua santa vontade. Ele a governará e será um Pai para você, de modo que nunca lhe falte nada aqui, se temer a Deus; pois Ele será o Pai dos órfãos e o Protetor das viúvas.
Portanto, meu cordeirinho, eu, que estou aprisionada e confinada aqui por amor ao Senhor, não posso ajudá-la de nenhuma outra forma; tive de deixar seu pai por causa do Senhor, e só pude tê-lo durante algum tempo. Deram-nos permissão de viver juntos apenas meio ano, e depois disso fomos presos, pois buscávamos a salvação de nossas almas. Eles o tiraram de mim, sem saber de minha condição, e eu tive de permanecer encarcerada, e vê-lo ir antes de mim; e foi um grande pesar para ele que eu tivesse de permanecer aqui, na prisão. E agora que suportei o tempo, carreguei-a sob meu coração com imensa tristeza durante nove meses e, com muitas dores, dei-a à luz aqui na cadeia, eles a tiraram de mim. Aqui estou, esperando a morte a cada manhã, e logo seguirei seu querido pai. E eu, sua querida mãe, escrevo-lhe, minha amada filha, algo como lembrança, para que assim você se recorde de seu querido pai e de sua querida mãe.
E agora, Janneken, meu doce cordeirinho, ainda tão pequena e jovem, deixo-lhe esta carta, junto com um anel de ouro que tinha comigo na prisão, e isso lhe deixo como despedida eterna e como testamento; que com isso você possa lembrar-se de mim, como também por esta carta. Leia-a, quando puder compreender, e guarde-a, enquanto viver, em memória de mim e de seu pai. E desse modo eu me despeço, minha querida Janneken Munstdorp, e beijo-a afetuosamente, meu doce cordeirinho, com um beijo eterno de paz. Siga a mim e a seu pai, e não tenha vergonha de nos confessar perante o mundo, pois nós não tivemos vergonha de confessar nossa fé ao mundo e a essa geração adúltera.
Que isso seja sua glória, que não morremos por nenhum ato perverso, e esforce-se por fazer o mesmo, embora eles devam tentar matá-la, também. E de forma alguma cesse de amar a Deus sobre todas as coisas, pois ninguém pode impedi-la de temer a Deus. Se seguir aquilo que é bom, buscar a paz e a seguir, você receberá a coroa da vida eterna; essa coroa, eu lhe desejo, e o Jesus Cristo crucificado, sangrando, despido, desprezado, rejeitado e assassinado, por seu noivo”.
Deus seja louvado!
“Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, dentre todos os homens somos os mais dignos de compaixão” (1 Coríntios 15:19).
Em Cristo,
Pr. Nill.